Origens

Até à década de sessenta chamava-se "Campo Escola" aos momentos que o CNE organizava para formação. Vários dirigentes, normalmente oriundos de diversas regiões juntavam-se, só a coordenação de um "formador", geralmente o chefe-geral para a formação de dirigentes, e, de "armas e bagagens", instalavam-se num local previamente estabelecido e anunciado, montando o seu campo e ali mesmo recebiam os dirigentes que iriam participar nesta acção de formação, melhor que iriam frequentar este Campo Escola. Tarefa árdua a destes formadores que, sem qualquer apoio logístico percorriam o país "espalhando a semente" da formação.

Nos finais dos anos cinquenta a necessidade de o CNE possuir um espaço permanente para as suas acções de formação foi ganhando corpo. Várias hipóteses de localização foram colocadas, finalmente emergiu a solução de Fraião-Braga. Nesta escolha foram factores fundamentais, o custo do terrenos, a sua localização estratégica, tanto no que diz respeito à Região de Braga como do próprio CNE, Braga tinha na altura mais de 50% do efectivo e a proximidade da região do Porto aumentava ainda mais o peso da área de influência de Fraião, o empenhamento da Junta Regional de Braga foi também ele um factor decisivo e finalmente o facto de alguns dos formadores da época serem desta região, mas sobretudo o facto do dirigente nacional para a formação também ser da região de Braga, o Dr. Manuel Faria - homem a quem se deve, em grande parte a materialização deste desejo do CNE.

O "Campo Escola" está instalado numa propriedade de cerca de 10.000 m2 com edificações erguidas nos anos de 1961/62 e já por duas vezes acrescentadas. A iniciativa foi viabilizada, nas duas vezes, pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Embora o primeiro curso tenha sido realizado em Agosto de 1962, a que se seguiram logo outras actividades, a sua inauguração oficial teve lugar no dia 21 de Julho de 1963, com a grata presença da filha do instituídor da Fundação Calouste Gulbenkian, todas as autoridades civis, militares e religiosas de Braga e mais de um milhar de escutas não só locais, como de todo o país e algumas representações estrangeiras.

Tradição

O "Campo Escola" foi concebido como sendo uma base de apoio à formação, tendo o projecto de construção contemplado vários elementos: casa para o chefe residente; aposentos para o chefe de campo; 2 salões polivalentes para formação; armazém/oficina; refeitório, cozinha e dispensas e instalações sanitárias. Refira–se que não estavam previstas instalações para a dormidas dos formandos e que a cozinha e o refeitório só muito mais tarde é que foram instaladas. Tudo isto porque, nessa altura, a base da formação era o acampamento, os formandos instalavam o seu campo e nele viviam. As construções apenas serviam para algumas sessões de formação.

O "Campo Escola" fora concebido e construído para responder às necessidades e às exigências que na altura se colocavam.

Para além da formação de adultos também este espaço era utilizado para a formação avançada de Exploradores (na época não só havia Pioneiros) e Caminheiros (cursos de Primeira Classe e de Guias).

Ainda na área escutista o Campo Escola sempre serviu de base de acampamento a todos os Agrupamentos cujos jovens vindos de longe dele se serviam para conhecer a região ou para partirem para outras aventuras, funcionando como um base de apoio na retaguarda. Os agrupamentos da região aproveitavam-no para desenvolverem as suas actividades de ar livre e de um modo muito especial para algumas celebrações e para iniciarem os seus "pata tenras" na arte de acampar.

Nessa época o "Campo Escola" foi um elemento dinamizador da pequena povoação de Fraião, pois, para além de ser um dos poucos locais onde as pessoas do lugar se podiam abastecer de água potável sem terem que percorrer longas distâncias, as suas instalações sempre estiveram ao serviço da população, hoje pode dizer-se que rara deverá ser a família da freguesia que no campo não tenha feito um baptizado ou uma boda de um familiar.

Situação interessante e que mereceria um estudo mais aprofundado esta ligação entre o Campo Escola, designação que ainda hoje é utilizada na freguesia, e a população de Fraião que culminou com a atribuição do nome de  Campo Escola e de Dr. Manuel Faria (o Chefe do Campo) a duas ruas próximas do Centro de Formação.

Mas a sociedade evolui, as exigências são cada vez maiores, o ritmo de vida é cada vez mais veloz e as novas necessidades de formação já há alguns anos que reclamavam uma alteração profunda nas estruturas do Centro de Formação.

Visão

No sentido de dar resposta a este novo ambiente social e educativo, bem como aos novos conceitos de formação adoptados pelo CNE, o Chefe de Campo iniciou, nos finais dos anos oitenta, uma discussão/debate sobre a evolução do centro, tendo culminado com a apresentação de um projecto de ampliação e reestruturação de alguns dos espaços existentes.

Este projecto de ampliação, da autoria do Arquitecto Coutinho que graciosamente colaborou, tal como em 1962, contempla a construção de um volume simples a desenvolver em linha, imediatamente colado ao abrigo. Assim partindo do nível do salão e balneários, criaram-se o piso P3 e mais dois pisos inferiores P2 e P1; aproveitando o desnível natural do terreno. A característica interessante deste desenvolvimento volumétrico é que o nível do piso P1 permite ligação com o Caminho Municipal, graças à cedência gratuita do terreno por parte dos nossos vizinhos, criando um novo acesso ao Campo Escola, este terá um funcionamento mais adaptado à especificidade das suas actividades. Dentro de uma estrutura de betão armado, todos os aspectos construtivo e de acabamento do edifício serão de índole tradicional muito semelhantes e na linha do existente.

Embora seja um edifício sóbrio nas suas linhas formais e simples no seu funcionamento será dotado no entanto de condições mínimas de conforto no que respeita à habitabilidade e funcionalidade.

O edifício foi implantado sem violentação do terreno, sacrificando ao mínimo as espécies existentes. Assim, para além das necessárias intervenções formais a nível de acessos e circuito envolvente o terreno será deixado Tanto quanto possível na sua natural rudeza pródiga e salutar, como tem vindo a ser e será sempre um dos lemas do CNE.

Este projecto embora concebido sem quaisquer luxos apresentava em 1990 uma estimativa orçamental de 30.000 contos. Este valor estava muito além das possibilidades financeiras do CNE, de qualquer forma foi lançado um concurso e adjudicada a primeira fase de construção - a estrutura e o telhado, tendo-se gasto 18.496.443$00. Finalmente concluídas as obras verificamos que este valor ultrapassa os 60 mil.

A Junta Central e a Junta Regional de Braga assinaram um protocolo que repartindo as despesas por estas duas estruturas do CNE permitiu, com a ajuda da Secretaria de estado da Juventude, do Instituto Português da Juventude da Câmara Municipal de Braga e da Junta de Freguesia de Fraião a conclusão do Centro.

Resta–nos a certeza que o "Campo Escola", hoje designado de Centro Nacional de Formação Calouste Gulbenkian, será novamente um elemento catalisador da formação e do progresso no Escutismo Católico Português. Tendo presente a máxima escutista que o dirigente deve ajudar a criança e o jovem a ser protagonista da sua própria educação, por forma a tornar-se num adulto socialmente activo na procura do bem comum guiado pelo ideal do Homem Novo apresentado por S. Paulo

 por: Carlos Alberto Pereira